Microcapitalismo empreendedor

Já faz algum tempo que mantenho contato com investidores e empreendedores brasileiros. Durante os últimos meses, trabalhando no GVcepe, tive a oportunidade de entender um pouco melhor as dificuldades pelas quais essas pessoas estão passando aqui no Brasil.

Escuto muito sobre “dificuldade para se conseguir dinheiro” de um lado e a “a falta de planos de negócio de qualidade” do outro. Não discordo que a “cultura de negócios” ainda é incipiente no nosso país, e que isso dificulta a elaboração de planos de negócios com sólida base financeira, mercadológica e estratégica, mas não acredito que falte dinheiro para ser investido em empresas nascentes com foco em inovação. O que acho que falta é um método de alocação de recursos realista e adaptado à nossa realidade.

Desconsiderando os planos de negócios que simplesmente não atingiram um patamar de qualidade aceitável do ponto de vista do investidor, e supondo que há sim capital disponível, o que tenho visto é uma “bateção” de cabeça que talvez seja desnecessária.

Na última semana aconteceu a final do 3º Desafio GV-INTEL. Esta competição de planos de negócios, da qual participei na sua segunda edição e que foi tema freqüente na fase 1 desse blog, traz estudantes (de graduação e pós-graduação) de todo o Brasil com um sonho de empreender. Conversando e ouvindo relatos percebi um ciclo:

1.    Investidores não gostam de planos pouco ambiciosos (um projeto que vise, a longo prazo, atacar somente um nicho no mercado nacional, por exemplo);

2.    Os empreendedores que sacam isso constroem planos agressivos;

3.    Estes projetos com visões muito ambiciosas, e conseqüentemente com necessidades de investimento muito altas, são vistos com desconfiança pelos investidores;

4.    Os empreendedores reformulam seus planos, diminuindo o escopo do projeto e o montante exigido.

Este ciclo vai se repetindo. Conheço empreendedores que estão lutando com esse dilema. Inicialmente apresentam seus projetos aos fundos mas recebem um “não” por se tratar de um plano que necessita de pouco investimento (“Não fazemos investimentos de R$100 mil reais… isso não dá retorno”). Reformulam o trabalho, visando objetivos mais grandiosos e, quando retornam, recebem outro não pois deixar R$2 milhões nas mãos de garotos é insanidade, certo?

Bom, ainda não tenho uma base teórica muito forte nem experiência profissional muito grande para afirmar com certeza que identifiquei um problema, mas acho que um fator que atrapalha o bom funcionamento dessa indústria no Brasil é a tentativa de importar para o país um modelo americano de capital empreendedor.

É praxe, em economia e administração, importar teorias de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, com freqüentes desastres (esse assunto daria um outro post gigante). Conforme o tempo passa chega-se a conclusão de que é preciso adaptar estas teorias e práticas à realidade local. Não somos tão globalizados e parecidos (americanizados) quanto pensamos.

O que eu proponho é uma adaptação desse modelo de venture capital americano usando como guia o que foi feito (com grande sucesso) no sistema financeiro para classes menos favorecidas em países em desenvolvimento (com destaque para a Índia).

Lá, por falta dos fatores necessários (infra-estrutura, mercado consumidor, análises de crédito etc.) o mercado financeiro tradicional não funcionou. O que funcionou (e muito bem)? Microfinanças. Uma adaptação do que já existia para a realidade local e a necessidade dos agentes envolvidos.

Se é extremamente arriscado dar um empréstimo de US$1.000 para uma criadora de gado a melhor solução é negar esse capital a ela? Não. Dê empréstimos menores, de US$50, US$100 com pagamentos realizados em um curto espaço de tempo (ao invés de empréstimos com 1 ano, 2 anos de duração, empréstimos com uma, duas semanas de prazo).

Isso dá ao investidor maior segurança, uma vez que ele diminui seu risco, e por outro lado insere esse microempreendedor no sistema. Além de, obviamente, aumentar o número de investimentos que um único investidor pode realizar.

Essa exclusão do mercado financeiro não lembra o que acontece com muitos empreendedores no Brasil? Não acho que estejam completamente errados ao dizer que falta capital… O capital está lá, só não chega nas suas mãos.

Então que tal aplicar um modelo de microfinanças para o capital empreendedor (capital de risco, se preferirem) no Brasil?

•    Investimentos menores, (R$50mil a R$200 mil reais);

•    Ciclos de investimentos mais curtos, com metas mais claras (desenvolvimento de protótipos, lançamento de versões beta, conquista dos primeiros 1.000 clientes, etc.);

•    Múltiplas rodadas de investimentos (quantas empresas brasileiras você conhece que receberam mais de 3 rodadas de investimento de capital empreendedor?).

Alguns podem dizer que este é o papel dos investidores anjo, mas eu discordo pois aqui no Brasil ainda não temos anjos suficientes que dêem conta da demanda de capital. O que temos é um grande número de fundos de PE/VC que querem investir mas não encontram projetos que adéqüem às suas expectativas. O que precisa mudar, então, é o alinhamento destas expectativas.

Empreendedores precisam preparar projetos visando múltiplas rodadas de investimento (definir metas e objetivos concretos para o curto/médio prazo) e os investidores, por sua vez, precisam abraçar planos cujas necessidades de investimento são menores.

Talvez esta não seja a solução, confesso que não dediquei muito tempo para refinar a idéia, mas é um modelo que está martelando na minha cabeça e gostaria de discuti-lo com pessoas mais experientes e preparadas do que eu.

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2 responses to this post.

  1. Gian,

    Excelente ponto. O que você propoê é parecido com o Y Combinator. O problema dos investidores de VC/PE adotar esta expectativa é o custo de transação e supervisão. Imagina transformar 100 iniciativas em SA, criar conselho, supervisionar, processos de governança corporativa para se proteger do liability frente aos GP’s?

    No mais eu concordo plenamento com o seu post. Boa perspectiva.

    Reply

  2. Camilo, obrigado pelo comentário.

    Realmente, a supervisão deste portfólio seria complexa. Será que realizar co-investimentos não seria uma solução? Dividir esta responsabilidade entre 2 ou 3 fundos, cada um com uma expertise e foco em determinados pontos da gestão das start-ups.

    O custo de transação é um problema grave sobre o qual eu estava discutindo ontem… Será que é possível criar uma empresa com foco setorial (ex.: serviços web, biotech) onde cada novo investimento gera um produto na sua fase inicial. Os sócios são funcionários desta empresa. Caso o produto seja bem sucedido nas suas primeiras fases (protótipo, piloto, etc) ele se separaria da “empresa mãe”, gerando um negócio a parte. A vantagem existe na redução dos custos financeiros e burocráticos para a abertura de diversas empresas. Este investimento só seria feito após o negócio provar a sua viabilidade. Lógico que este modelo não se aplicaria a qualquer setor, mas para alguns (como web) eu acho que seria interessante.

    Isso já foi feito? Será que é viável?

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